quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Amor - Luis Fernando Verissimo

Ela: Você me ama mais do que tudo?
Ele: Amo.
Ela: Paixão, paixão?
Ele: Paixão, paixão mesmo.
Ela: Mais do que tudo no mundo todo?
Ele: No mundo todo e fora dele.
Ela: Não acredito.
Ele: Faz um teste.
Ela: Eu ou fios de ovos.
Ele: Você, fácil.
Ela: Daqueles com calda grossa, que a gente chupa o fio e a calda escorre pelo queixo.
Ele: Prefiro você.
Ela: Futebol.
Ele: Não tem comparação.
Ela: Você esta caminhando, vem uma bola quicando, a garotada grita "Devolve tio!" e você domina, faz dezessete embaixadas e chuta com perfeição.
Ele: Prefiro você.
Ela: Internacional e Milan em Tóquio pelo campeonato do mundo, passagem e entrada de graça.
Ele: Você vai junto?
Ela: Não.
Ele: Pela televisão se vê melhor.
Ela: Faz muito calor. Aí chove, aí abre o sol, aí vem uma brisa fresca com aquele cheiro de terra molhada, aí toca uma musica no rádio e é uma nova do Paulinho. É Sexta-feira e a televisão anunciou um Hitchcock sem dublagem para aquela noite... e o Itamar está dando certo.
Ele: Você.
Ela: Voltar a infância só pra poder pisar na lama com o pé descalço e sentir a lama fazer squish entre os dedos.
Ele: Você, longe.
Ela: A Sharon Stone telefona e diz que é ela ou eu.
Ele: Que dúvida. Você.
Ela: Cheiro de livro novo. Solo de sax alto. Criança distraída. Canetinha japonesa. Bateria de escola de samba. Lençol recém-lavado. Hora no dentista cancelada. Filme com escadaria curva. Letra do Aldir Blanc. Pastel de rodoviária.
Ele: Você, você, você, você, você, você, você, você, você e você, respectivamente.
Ela: A Sharon Stone telefona novamente e diz que se você se livrar de mim ela já vem sem calcinha.
Ele: Desligo o telefone.
Ela: Fama e fortuna. A explicação do universo e do mercado de commodities, com exclusividade. A vida eterna e um cartão de credito que nunca expira.
Ele: Prefiro você.
Ela: Uma cerveja geladinha. A garrafa chega estalando. No copo, fica com um quarto de espuma firme. O resto é ela, só ela, dizendo "Vem".
Ele: Hummm...
Ela: Como, hummm? Ela ou eu?


... Silêncio de 5 segundos ...


Ele: Qual é a marca?
Ela: Seu cretino!


--> Achei esse texto outro dia num desses blogs da vida. Como eu AMO o Verissimo eu quis compratilhar com vocês.
Espero que gostem.

sábado, 22 de novembro de 2008

Empregadas de mamãe

Me impressiona como minha mãe troca de empregada, ela troca de empregada como quem troca de roupa.
Uma roubou um esmalte. A outra queria dar cerveja preta por meu irmão dormir (o moleque tinha 1 ano e meio), claro que ele ia dormir, ia dormir de bêbado.
Mas tiveram duas que são inesquecíveis.
E tinha a Tereza, uma mulher muito simples, trabalhadora, mas só falava merda. Um dia na hora do almoço ela tava falando que tinha passado mal durante a semana, que tinha precisado tomar “navagina” pra baixar a pressão. Eu tava com a boca cheia de suco, cuspi na mesa toda, a toalha ficou toda laranja de Tang.

E teve também a Lourdes, a Pirata. Ela era casada com um delegado de policia. Um dia eles discutiram porque ela achava que ele a traia, ele perdeu a paciência e pegou o revolver e ela disse para ele “vai atirar! Atira se você é homem!”. Resultado, ela ficou manca e com um olho de vidro. Uma lindeza. Uma Jack Sparrow da Zona Leste.
Adoro gente exótica.


* * * * * *

Recebi esses dias dois selos, como eu esqueci de marcar quem me mandou cada selo, eu num vou falar quem me mandou.
xD
Olha os selos ai:


Repasso pra quem ler e quiser colocar o selo no blog tambem...

bjo
bye-bye

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O Pianista

Era uma vez o Pianista. Um dos melhores que alguém já havia ouvido, talvez o melhor. Na verdade, era um pianistazinho. Ele era menor que um mindinho e seu piano tinha o tamanho de uma caixinha de anel (daquelas que guardam aliança), um belo piano de cauda, preto e lustroso. O Pianista viajava pelo mundo em seu aeromodelo para fazer seus espetáculos. Muito famoso por ser tão pequeno e tão bom, todos o convidavam para festas. Ele era muito tímido e não gostava de ficar cercado por muita gente, principalmente, porque se as pessoas ficassem bêbadas começariam a brincar com ele, pega-lo na mão, etc.


Numa dessas festas, as pessoas ficaram muito bêbadas e começaram a jogá-lo para cima. Uma senhora, com medo que ele se machucasse, tirou o Pianista da mão de um dos bêbados e o guardou em segurança, enrolado num lenço dentro de uma bolsa e o levou para casa.


Na manhã seguinte, o Pianista acordou na casa da senhora com uma música triste tocando baixo em algum lugar da casa. Muito curioso, ele começou a procurar pela casa e quanto mais perto dos quartos ele chegava, mais alta e clara se tornava a musica. Chegando ao quarto de onde a musica vinha, o Pianista começou a escalar a estante. Uma, duas, três, quatro, cinco prateleiras. Quando chegou à sexta prateleira, ele parou. Havia encontrado a fonte da musica. Uma caixinha de musica.


Era uma caixinha de música preta, do tamanho de uma pequena caixa de sapatos e com gravura de rosas. E dentro da caixa estava a Bailarina, dançando repetida e lentamente ao ritmo da musica triste que a caixa tocava, com uma expressão ainda mais triste que a musica em si.


Ele ficou muito tempo ali, sentado do lado de fora da caixa, observando a Bailarina. Ele ficou ali até ser encontrado pela senhora que o salvara na noite anterior. Ele gostaria de ficar ali sempre, mas ele tinha que partir, tinha espetáculos a fazer. E ele foi.


Depois daquele dia, ele nunca mais tirou a bailarina e sua caixa de musica do pensamento. Algum tempo depois, ele refletiu muito sobre tudo e tomou uma decisão muito importante: decidiu parar de se apresentar, ir morar na caixa de musica com a Bailarina e tocar para ela musicas mais alegres.


O Pianista ligou para a senhora e perguntou se poderia morar na caixa de musica com a Bailarina, a senhora disse que sim e, assim que pôde, ele se mudou para a caixinha.


O Pianista e a Bailarina vivem felizes até hoje na caixinha de musica em cima da prateleira do meu quarto na casa da minha avó.

-->Essa historinha foi inventada pela minha tia quando eu era pirralha. A história originalmente não era assim, mas como eu era muito pirralha quando minha tia me contava, eu não lembro tudo. Mas é basicamente isso. Espero que gostem.

Até o próximo post.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Claustrofobia

ESPAÇO: simples, natural, necessário, vital, em defasagem dentro dessa lata.

Uma lata de 22 metros por 3. Lotação: 75 pessoas.

Eu entro, me acomodo, olho para as outras sardinhas. Sardinhas vestidas com casacos, dentro de uma lata fechada, quente, com o ar condensando nas janelas. Sardinhas provavelmente doentes contaminando o meu ar, me contaminando.

AR: simples, natural, necessário, vital, em defasagem dentro dessa lata.

Eu aqui prensada entre um vidro e as costas de uma sardinha gorda. Falta ar, falta espaço.

A cabeça girando. NÃO TEM AR SUFICIENTE PARA TANTA GENTE! Tudo fechado. Começa a dor de cabeça. A gorda desencosta (graças a Deus!). Mas não melhora. Começa a tontura. Abro os olhos. Atendo o celular, falo com dificuldade. A tontura piora. Desligo.

Cada vez pior. Olho para fora. Ruas, árvores, carros, pessoas, espaço. A janela embaçada. Pontadas no estomago. O gosto do pastel que eu engoli antes de entrar no ônibus, o gosto voltando. O pastel quer subir, até ele quer espaço.

Me esforço para não encher de pastel semi-digerido a blusa com estampa de bolinhas da maldita sardinha gorda.

Um lugar fica vago. Eu me sento, tiro o caderno da bolsa e começo a escrever para me distrair. A senhora do meu lado observa cada palavra do começo desse texto.

FODA-SE! NUNCA ME IMPORTEI COM A OPINIÃO DOS OUTROS, POR QUE COMEÇAR AGORA?!

A tontura melhora. Mas a dor de cabeça e a ânsia continuam.

Vou escrevendo o rascunho desse texto até chegar perto do meu ponto. Guardo o caderno e desço. Vou até em casa cambaleando, com o gosto de pastel na boca (agüenta ai, amigo!). Tropeço na escada, procuro as chaves, entro em casa me arrastando até o banheiro. Lavo o rosto, tiro a roupa e me jogo embaixo do chuveiro. A água morna vai me acalmando. A dor de cabeça passa e a de estomago também.

Termino de escrever o texto. Abro a porta para o meu namorado. E vivo feliz para sempre, até entrar de novo no ônibus.